FMI revisa pra cima o crescimento do Brasil, mas frete e insumos ainda pressionam o agro

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O Brasil ganhou fôlego nas projeções internacionais. Em seu relatório Panorama Econômico Mundial, publicado nesta quarta-feira (08.07), o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para cima o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, elevando a estimativa para 2,4% em 2026. O movimento acontece em um momento em que a economia global, sob forte tensão geopolítica, teve sua previsão de crescimento reduzida de 3,1% para 3%.

Para o produtor rural e o setor de insumos, a notícia traz dois lados da mesma moeda. Se, por um lado, o crescimento reflete a força da balança comercial brasileira — onde o agronegócio é protagonista —, por outro, a instabilidade no Oriente Médio acende um alerta amarelo sobre o custo dos insumos e do frete no curto e médio prazo.

O relatório do FMI deixa claro: o Brasil tem se beneficiado do cenário atual por ser um grande exportador de petróleo, o que ajuda a equilibrar as contas externas diante da alta dos preços globais de energia. No entanto, para o campo, a conta é mais complexa.

Embora o país ganhe divisas com a exportação de óleo cru, os custos internos de produção são diretamente atrelados ao preço dos derivados. Combustíveis e fertilizantes — cuja produção é intensiva em energia — estão sob pressão constante. O FMI ressaltou que os custos de energia seguem 25% acima dos patamares anteriores ao conflito, situação que deve persistir até 2027 devido às dificuldades no fluxo marítimo, especialmente no Estreito de Ormuz.

A projeção de 2,4% do FMI está alinhada ao bom desempenho do primeiro trimestre, quando o país registrou alta de 1,1% no PIB. André Valério, economista sênior do Inter, destaca que o cenário geopolítico favorece as exportações totais, com a balança comercial apresentando um desempenho 40% superior ao registrado no mesmo período do ano passado.

Contudo, Valério pondera que o setor produtivo deve agir com cautela no segundo semestre. “A tendência é que o crescimento brasileiro seja impulsionado mais pelo ganho nas exportações do que por um consumo interno aquecido, que ainda sente o peso dos juros elevados”, explica. Além disso, a redução dos estímulos fiscais pode frear a atividade econômica nos próximos meses.

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Pontos de atenção para o agronegócio

Para quem está na ponta da produção, o recado do relatório econômico é claro:

  1. Inflação de Insumos: Apesar da receita recorde com exportações (petróleo e commodities), a pressão inflacionária global é real. Com a energia mais cara, o custo de fertilizantes nitrogenados, que dependem fortemente do gás natural e petróleo, pode sofrer volatilidade.

  2. Volatilidade Cambial: O desempenho da balança comercial tem ajudado a sustentar o real, mas qualquer escalada no conflito do Oriente Médio pode forçar uma busca por dólar (moeda de refúgio), encarecendo equipamentos e insumos importados.

  3. Logística: O frete, que já é um gargalo histórico do agro nacional, segue sensível a qualquer solavanco no preço internacional do diesel.

Enquanto o governo federal celebra a segunda maior revisão positiva entre os países do G20, o produtor rural deve seguir focado na gestão de custos. O Brasil provou ser resiliente, mas, em um mercado global cada vez mais vulnerável a tensões geopolíticas, o planejamento estratégico para a safra nunca foi tão dependente da leitura atenta do cenário externo.

ROBUSTO – Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Engenheiro Agrônomo Isan Rezende (foto), esse ajuste para cima do PIB brasileiro pelo FMI é um reflexo direto da nossa robustez exportadora, onde o agronegócio tem sido a âncora principal.

Isan no entanto lembra que o produtor precisa olhar esse número com pés no chão: “o crescimento macroeconômico não anula os gargalos microeconômicos que enfrentamos. Se por um lado o cenário global nos beneficia pela demanda de commodities, por outro, essa mesma conjuntura geopolítica mantém o custo de produção em um patamar de alerta constante, o que pode comprimir as margens de lucro se não houver uma gestão muito bem desenhada na porteira para dentro”, alertou.

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“O grande desafio para 2026 está na nossa dependência energética, que o relatório do FMI sublinha muito bem. O Brasil exporta óleo bruto, mas importa a volatilidade do mercado de energia refinada, que afeta diretamente o preço do diesel e, consequentemente, dos insumos. Para o setor, essa é uma faca de dois gumes: o país ganha na balança comercial, mas a ponta da produção sente o reflexo na logística e na compra de fertilizantes. Não podemos ignorar que a crise no Oriente Médio atua como um ‘imposto invisível’ que incide sobre o custo do frete, neutralizando boa parte do ganho cambial que o produtor teria nesta janela de exportação”, disse Isan Rezende.

“Por fim, o momento exige o que chamo de ‘agilidade defensiva’. O setor não pode se deixar levar pelo otimismo das projeções nacionais enquanto ignora a vulnerabilidade das cadeias de suprimentos globais. O agricultor precisa focar na eficiência produtiva e em estratégias de hedge mais agressivas, pois a previsão de que os custos energéticos permanecerão elevados até 2027 é um dado que deve balizar qualquer decisão de investimento para as próximas safras. O agronegócio brasileiro é resiliente, mas sua sustentabilidade financeira em tempos de conflitos globais dependerá mais da capacidade de gerir riscos do que apenas da produtividade da terra”, completou o presidente do IA.

Fonte: Pensar Agro

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