ESPECIAL VG 158 ANOS

Conheça a história da cidade que conecta tradição e desenvolvimento

O historiador Suelme Fernandes, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e profundo conhecedor da história mato-grossense explica mais sobre a história da cidade industrial

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Entre os trilhos da história e o asfalto do presente, Várzea Grande chega aos seus 158 anos com muito mais que uma certidão de nascimento, carrega no corpo urbano a memória de um tempo em que soldados, rios e estratégias militares deram origem a uma das cidades mais importantes de Mato Grosso.

Nascida oficialmente em 15 de maio de 1867, em plena Guerra do Paraguai, Várzea Grande começou como um acampamento militar estratégico às margens do rio Cuiabá, num ponto alto o suficiente para proteger Cuiabá de possíveis ataques por via fluvial. Ali, fincou-se o que viria a ser a base de uma cidade que hoje ostenta o título de segunda maior do estado em população e pulsante força econômica.

“A origem de Várzea Grande tem tudo a ver com defesa e a logística da Guerra do Paraguai. Era preciso proteger Cuiabá, que era a capital da província, e o ponto onde hoje está a cidade era ideal para essa missão”, explica o historiador Suelme Fernandes, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e profundo conhecedor da história mato-grossense.

*Um nome que veio da paisagem*

O nome “Várzea Grande” surgiu de forma quase natural, o local era uma extensa planície alagável às margens do rio Cuiabá, uma grande várzea mesmo — como chamavam os antigos esse capim típico do Pantanal. A região passou de posto militar a núcleo populacional com o crescimento das lavouras, imigração e tempos depois, com surgimento de pequenas casas comerciais.

“Como a antiga estrada real que ligava Cuiabá a Vila Bela no século XVIII passava onde hoje esta localizada a Avenida Couto Magalhães. Essa região virou rapidamente um local de hospedagem e logística para interiorização de Mato Grosso até os dias atuais, surgindo instalações e um comércio varejista. No Século XX a cidade foi conhecida como Portal da Amazônia.”

Foi somente em 1948 que se emancipou de Cuiabá da condição de distrito virou oficialmente município, por meio da Lei nº 144, de 23 de setembro. Mas o embrião urbano já estava vivo há décadas — pulsando ao redor da antiga igrejinha de Nossa Senhora da Guia, que ainda existe, silenciosa e resistente, como testemunha do passado.

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O POVO QUE FEZ A CIDADE CRESCER

Originalmente seu povo é uma miscigenação de negros, escravizados e forros, com os indígenas Guaná que habitavam as margens do rio e dos paraguaios apreendidos na guerra.

A partir do Século XX a cidade cresceu com a força de famílias tradicionais, de operários da construção civil, pequenos comerciantes e, principalmente, migrantes nordestinos, que chegaram em ondas a partir das décadas de 1960 e 1970. A chegada da ferrovia em 1914, por exemplo, ajudou a impulsionar esse movimento migratório e abriu novas possibilidades econômicas.

Outro marco na transformação da cidade foi a transferência do aeroporto de Cuiabá para o bairro Jardim Aeroporto, em Várzea Grande, em 1956, consolidando o município como um centro logístico essencial.

“Várzea Grande tem uma identidade muito forte ligada ao Pantanal ao povo ribeirinho e de milhares de migrantes que vieram para cidade em busca de trabalho. A cidade cresceu em meio à poeira vermelha da colonização do interior do Estado e às promessas de futuro, e hoje se impõe como polo comercial e também político”, reforça Suelme.

CURIOSIDADES

– O primeiro cemitério da cidade ficava onde hoje é a Praça Aquidaban, no Centro;
– A Igreja Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade, tem mais de 100 anos;
– O bairro Cristo Rei começou como um povoado operário e hoje é um dos mais populosos da cidade;
– O lendário “Bar do Zé Bife”, nos anos 80, era um ponto de encontro entre políticos, artistas e moradores;
– A localidade mais antiga da cidade é o distrito de Bonsucesso, a rota do peixe, criado em 1906;
– A primeira ligação entre Cuiabá e Várzea Grande era feita de balsa, inaugurada em 4 de junho de 1874;
– A primeira igreja da cidade, Nossa Senhora da Guia, foi inaugurada em 1892;
– A primeira ponte entre Cuiabá e Várzea Grande foi inaugurada em 1942, a Ponte Júlio Muller;
– A energia elétrica chega ao município em 1945, sendo o terceiro distrito de Cuiabá a recebê-la;
– O primeiro prefeito da cidade foi o Major Gonçalo Romão de Figueiredo;
– O primeiro time de futebol, o Clube Esportivo Operário de Várzea-grandense nasceu em 1 de maio de 1949. Sendo a partida de estreia do time contra o Palmeiras de Cuiabá, no antigo Círculo Operário;
– A Câmara Municipal foi instalada em 25 de julho de 1949, sendo o primeiro presidente o vereador Benedito Gomes da Silva;
– O primeiro sistema de água foi inaugurado em 1952, na administração então prefeito Júlio Domingos de Campos com a inauguração da caixa de água localizado na avenida Filinto Muller;
– Em 1957 foram inaugurados o primeiro posto de combustível e a cadeia pública, e também foi lançado o primeiro código tributário municipal.

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PRESENTE E FUTURO

Com mais de 290 mil habitantes, Várzea Grande é hoje um município que concentra grandes empresas, abriga o Aeroporto Internacional Marechal Rondon, tem um comércio forte e uma indústria pujante. Ainda assim, convive com desafios históricos, como a necessidade de melhorias em infraestrutura e saneamento — marcas de uma urbanização acelerada, porém desigual.

“Várzea Grande ao contrário do que muitos pensam e apesar do tempo tem uma identidade própria. Até o falar cuiabano é mais cantado do outro lado da ponte, tem teares de redes únicos, rotas de peixadas cuiabanas e uma paixão pelo lambadão como nenhum outro município”, conclui o historiador.

Neste aniversário, Várzea Grande não celebra só o tempo que passou, mas a tradição de resistir e reinventar-se, todos os dias, entre o que foi e o que ainda quer ser.

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