Se Várzea Grande tem um coração que pulsa nos campos de futebol, ele veste as cores vermelho, branco e verde e atende pelo nome de Clube Esportivo Operário Várzea-grandense (CEOV). Fundado em 1º de maio de 1949, pelo jornalista e empresário Rubens dos Santos Baracat, é um grupo de amigos, entre eles Luís Victor da Silva que se foi o primeiro presidente do time. A equipe da fundação permaneceu junto até 1954 mostrando que o “Chicote da Fronteira” é mais que um clube, é símbolo de identidade, paixão e resistência esportiva de uma cidade que aprendeu a jogar duro desde a origem.
Entre os torcedores apaixonados, um nome se destaca como a memória viva do clube: Saturnino da Costa, o popular Satu. Nascido em Poconé, ele chegou a Várzea Grande em 1970, ainda menino — e logo se encantou com o Operário. “Comecei a acompanhar os treinos do time no campo onde hoje funciona a Escola Fernando Leite. Foi ali que nasceu meu amor pelo Operário. Minha família é toda operariana, e eu construí uma história dentro do clube que não quero deixar apagar. Por isso, sempre busco formas de resgatar e contar essas histórias para as novas gerações que estão conhecendo agora o Chicote da Fronteira”, relata com emoção.
Em 1979, Satu chegou a ser convocado para defender a seleção de Várzea Grande. “Alguns que jogaram comigo seguiram carreira profissional, como o Dito Siqueira, que já faleceu. Eu precisei trabalhar, não pude continuar, mas segui jogando no amador e fui muito feliz.”
ACERVO: UM PATRIMÔNIO PESSOAL
A paixão virou missão, e a missão, um acervo. O colecionismo de Satu começou por acaso. “Encontrei três fotos do time jogadas no lixo. Aquilo cortou meu coração. Conversei com minha chefe da época e comecei a pesquisar sobre as imagens. Desde então, não parei mais.”
Atualmente, sua coleção conta com mais de 1.200 peças — entre fotos, troféus, camisetas e súmulas — e é considerada a maior coleção individual dedicada a um clube de futebol, nacionalmente.
Entre as relíquias, destacam-se as súmulas originais do primeiro jogo internacional realizado em Mato Grosso, em 1965, no Estádio Presidente Dutra, quando o Operário venceu o Oriente Petroleiro, da Bolívia, por 7 a 1. Há também a súmula da estreia do pai de Neymar, em Cáceres, e camisetas históricas do tricampeonato estadual de 1985, 1986 e 1987 e a histórica
camisa tricolor que tem 54 anos vestida pelo zagueiro Nélson Paô em 1971. “O acervo continua crescendo. À medida que divulgamos, mais peças aparecem, mais gente contribui. E isso nos deixa muito felizes”, celebra.
EXPOSIÇÕES E RECONHECIMENTO
A primeira exposição oficial foi realizada em 2016, na Casa de Artes, no centro de Várzea Grande. “Inicialmente seriam 15 dias, mas, pelo sucesso, ficou 30”, relembra Satu.
O sucesso rendeu convites. O mais especial veio do Museu do Futebol, em São Paulo, para uma mostra de cinco meses. Mas, infelizmente, por falta de apoio logístico e financeiro, a viagem não foi possível. “Foi uma pena. Mas segui firme na missão de preservar a história.”
A maior exposição até agora foi realizada em 2021, no Várzea Grande Shopping, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura. “Foram 60 dias de intensa visitação. Vieram amantes do futebol, ex-jogadores, torcedores de passagem pelo aeroporto, o diretor do Coritiba, o primo do Zico… Teve de tudo!”
O ponto alto foi uma bandeira gigante do Operário, com 12 metros de comprimento, onde os visitantes colavam fotos de suas épocas. “No fim da exposição, não havia mais espaço. Cada canto da bandeira estava preenchido com imagens que misturavam passado e presente. Foi emocionante”, conta Satu.
Entre tantas lembranças, uma segue viva na memória, o primeiro título profissional do CEOV, conquistado em 1967, ano em que Mato Grosso foi oficialmente inserido no futebol profissional. “Eu tenho essa faixa!”, diz, orgulhoso.
Ele também recorda a escolha da primeira rainha do clube, a professora Sarita Baracat, e exibe com entusiasmo uma foto rara de Neymar (pai) vestindo a camisa do Operário em 1997, com o pequeno Neymar Jr.
GLÓRIAS E TÍTULOS
Com 12 títulos do Campeonato Mato-Grossense, o Operário é um dos clubes mais vitoriosos do estado. A primeira conquista veio em 1964 e a mais recente em 2024, pela copa da Federação Mato-grossense de Futebol com invencibilidade reacendendo o orgulho da torcida várzea-grandense.
Por durante décadas, o clube marcou presença em competições nacionais como a Série C do Brasileirão e a Copa do Brasil, revelando grandes nomes do futebol mato-grossense: Bife, Mão de Onça, Caruzo, Laércio, Juarez, Panzarillo, Manfrini, Adalberto, Mosca, Ivanildo, Malaquias, entre outros.
José Silva Oliveira, mais conhecido como Bife, foi um dos grandes ídolos do time, e o maior artilheiro do estádio Verdão. Outro que se destacou foi o jogador Nasser Untar, que começou nas categorias de base do clube e brilhou em equipes como Londrina, Grêmio Maringá, Botafogo de Ribeirão Preto e na Espanha, encerrando a carreira no time onde tudo começou.
Satu destaca ainda a contribuição da família Untar para o futebol local. “Foram quatro grandes goleiros — Ali, Yunes, Mussa e Jafar Untar. Este último jogou em 1958, ao lado do Caboclo, que era marido da ex-prefeita Sarita Baracat.”
ATUALIDADE E FUTURO
Nos últimos anos, o Operário enfrentou altos e baixos, com crises financeiras, oscilações técnicas e desafios de gestão. Ainda assim, segue vivo — movido pela paixão de sua torcida e pela força de sua história.
“Operário é história. Operário tem história”, resume Satu, com brilho nos olhos e a certeza de que o Chicote da Fronteira ainda tem muito a bater.

























